Viagens no tempo
Luis Fernando Verissimo
Nenhuma ficção sobre viagens no tempo, que eu saiba, foi sobre a que para mim, seria a mais fascinante – e terrível: ser transportado para o mundo como ele era antes de aprendermos a fazer fogo. Imagine-se neste passado. Esqueça o frio. Mesmo sem fogo, já saberíamos como nos aquecer. E é provável que você tenha caído na África Equatorial, onde, dizem, tudo começou. Ou nós começamos. Não é isto.
Num mundo sem fogo, não existe luz. Pense nisto: depois que o sol se põe, não se enxerga mais nada. Até o sol reaparecer, não se enxergará mais nada. Você estará numa escuridão total e irremediável. A luz das estrelas não o ajudará a saber se aquele escuro mais espesso que parece se mover é um parente, um amigo ou um leão. Uma lua cheia melhorará a sua percepção, mas não muito: cada sombra indefinida continuará a ser uma ameaça e um possível terror. Quando não houver estrelas ou lua, você só saberá o que acontece à sua volta pela audição, o olfato ou, meu Deus, o tato. Imagine a vida sem num um pau de fósforo. Imagine uma noite inteira de ruídos estranhos dos quais você não pode fugir, pois como encontrará uma árvore no escuro? Imagine-se aninhado numa árvore para passar a noite com segurança e descobrindo, ao amanhecer, que dormiu abraçado a uma jiboia! Eu sei que não tem jiboia na África Equatorial, é só um exemplo.
Quantos anos os pré-homens terão vivido assim, só conhecendo o fogo dos incêndios provocados na mata por relâmpagos e desesperados por algum meio de domesticá-los, os relâmpagos ou o fogo, para iluminar as suas noites? O sol seria adorado pelos primitivos porque era a fonte de vida e, afinal, qualquer bola incandescente daquele tamanho passando diariamente pelo céu fatalmente causaria admiração, mas desconfio que o que era adorado, acima de tudo, era a luz. Não a lâmpada mas a sua dádiva, o poder de enxergar. O fim do terror do invisível, ainda mais do invisível que roncava.
O sono é uma decorrência da mecânica do Universo. Dormimos porque a Terra gira em torno do seu eixo e uma das suas metades está sempre na sombra e seus habitantes não têm o que fazer no escuro a não ser dormir. Como continuamos a dormir como fazíamos na savana africana, ou pelo menos a ter sono a intervalos regulares, isto significa que o cérebro humano não tomou conhecimento nem na invenção da fogueira, quanto mais da lamparina, da lâmpada a gás e da luz elétrica. Para o nosso cérebro, a escuridão da noite continua total e irreversível. Ele ignora os avanços na nossa percepção do mundo, um pouco como a burocracia brasileira ignora a informática e continua presa a vias e carimbos pré-históricos. Temos sono porque o nosso cérebro ainda não sabe que enxergamos no escuro.
Viagens no tempo seriam mais atraentes e proveitosas se pudéssemos ir em busca dos nossos antepassados. Não dos conhecidos, mas dos mais remotos. Os da savana. Munidos de algum tipo de documento de identidade genética, e com algum meio de identificar geneticamente os outros, mesmo os outros primitivos, que substituísse o puro palpite (“Sei não, mas aquele hominídeo tem o nariz da tia Dulce”), sairíamos à cata de parentes na era pré-fogo, numa viagem sentimental às origens do nosso DNA. Uma excursão à nascente.
Sabemos algumas coisas com absoluta certeza sobre os nossos antepassados genéticos. Sabemos com absoluta certeza que todos viveram até a maturidade sexual, que todos tiveram pelo menos uma relação sexual na vida e que todos, sem exceção, era férteis, o que reduz bastante o campo de pesquisa. Só teríamos que procurar entre fêmeas com filhos que nos ajudassem a localizar os pais das crianças e, entre estes, o que tivesse o DNA como o nosso. Ajudaria, claro, se também tivesse o nariz da tia Dulce.
O que diríamos para este antepassado, em que língua, com que gestos? Só agradecer por ter sobrevivido ao duro início da vida humana, inclusive aos leões, e assim iniciado a nossa linhagem não seria o bastante. O momento requereria alguma solenidade. Talvez um discurso, dizendo que não o tínhamos desapontado, que também tínhamos vivido o suficiente para passar adiante nossos genes e assegurar a sua descendência, milhões de anos depois. E trocaríamos presente.
Que presente poderíamos levar da nossa era para ele? Eu levaria uma caixa de fósforos.
Domingo, 18 de agosto de 2002.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.